INÍCIO
foi só quando ele me chamou para falar sobre como não acredita em relacionamentos que eu percebi, com grata surpresa, o quanto adianta acredito. ainda.
ACIDENTE
Ela disse "você é o amor da minha vida", disse mais de uma vez e em momentos discretamente variados como se quisesse ter certeza de que eu me lembraria, de manhã, com o céu escuro, no fim de tarde, que deixei escapar ser o meu horário preferido, no calor de nós dois suados e grudando como se fôssemos um só ser grotesco com quatro braços e pernas e bocas sedentas de beijos e validações, e na chuva, e antes e depois das lágrimas, envoltos num edredon vermelho, e "você é o amor da minha vida" não é algo fácil de se ouvir.
Dane-se se é difícil de dizer, é difícil de ouvir, te atropela a toda velocidade e você voa por cima dos fios telefônicos e cai com estrondo e bate a cabeça na guia da calçada cheia de poças de água suja e restos da vida alheia, e como se sentir os ossos se esfarelando não trouxesse suor o bastante, ainda precisa reagir ao amor falado, ao imenso amor falado que ninguém sabe exatamente o que significa mas que ataca e que expressa a dor mais forte que você já sentiu no vazio do peito, a dor que é tão sua que se confunde com êxtase e conforto e esperança, a dor que o outro se tornou capaz de causar em você e que você aceita como um presente, um bolo de sete andares confeitado de vida e chamado de amor.
É preciso reagir, e o problema, veja bem, o problema que me leva a êxpor convicções trágicas e os pulsos marcados a quem mal conheço em linhas perversas e nuas, nuas, o problema é que não me lembro de qual foi minha resposta.
Por mais que eu tente e grite com o reflexo no espelho e bata a cabeça nas paredes brancas desse quarto abafado, não me lembro do que respondi quando a ouvi entregar o título de amor maior a alguém que do amor espera sangue e ossos transformados em pó. Não me lembro, e me apavoro, pois se não sei muito da vida, sei que a amo, e se silenciei, foi esse o acidente.
Você acredita?
Não desista de mim.
Continuo forçando a memória.
Mas já se passaram onze anos, e assim como me esqueci do que respondi naqueles dias e noites de frio e calor e perigo e corpos mutantes e aterrorizados, tremo ao imaginar que ela tenha se esquecido de que um dia sentiu por mim algo tão forte, de que um dia me chamou de
o
amor
da
sua
vida.
ALARME
acordei bêbado pela maciez dos lençóis e pelo frio agradável da manhã no meio desse verão enlouquecedor e pelo seu abraço, como se o mundo já tivesse desmoronado e você e eu sobrevivido ao fim dessa humanidade ausente de sentido se não estamos juntos, e então acordei de novo. sonhos podem ser cruéis.
CORAGEM
Já não era a segunda nem a terceira vez, e Joana se escondia em escadas de incêndio e chorava em silêncio nos banheiros por não entender por que o caminho era sempre aquele, e ela sempre acabava largada no acostamento. Não não não não não, ela pensou, e construiu o pedido de socorro enquanto ao lado alguém lavava as mãos, e disse sem dizer que dessa vez, se você não me quiser mais, vai ter que me dizer, vai ter que olhar nos meus olhos e me dizer com todas as letras que não me quer, que prefere viver sem mim e que eu devo esquecer de tudo e imaginar a vida com outras pessoas e que tem certeza, que tá a fim de amar gente nova e que eu não valho a pena e que não vai sentir a minha falta. Se você não me quiser mais, vai ter que olhar nos meus olhos e partir o meu coração sem dó e dizendo que é pra sempre, e calou e se olhou no espelho e após uma pausa de todos os segundos quase gritou de pavor ao perceber a resposta que pedia. Aí, só aí, ela acreditaria.
MORTE
há muito que a cada vez que ouvia o nome dele chorava como se estivesse sendo abraçada pela morte, e ela lhe sussurrasse uma canção de ninar.
TEMPO
Sabe o que eu demorei para entender, meu amor? Não, nem foi para entender, foi para conseguir organizar num pensamento lógico, para conseguir traduzir em palavras e olhar para você e dizer as palavras assim, com o brilho nos olhos de quem descobriu que a esperança é maior. Sabe o que é? É que cada um é cada um, mesmo a gente sendo um só, e cada um tem o seu próprio tempo. Sei, soa bobo, ingênuo, óbvio, empoeirado, mas há uma história toda nossa gravada nesse clichê. A gente tem o nosso próprio tempo, e às vezes, muitas vezes, o nosso tempo machuca o outro. Não há como evitar. É o nosso tempo, é como a gente sabe ser, é a marcha que nos faz ir mais rápido ou devagar (e foi você quem me ensinou qual era a das marchas, lembra?). Mas há movimento, como, sim, num relógio. O seu tempo já me feriu, me frustrou, me botou correndo em disparada até a sua casa em madrugadas para cuspir verdades indelicadas, me fez deletar os seus e-mails sem ler. E não havia explicação que apagasse a minha fúria, porque o tempo se diverte em ser um mistério. E agora, foi o meu tempo, desregulado, que fez você sangrar. Desculpe, não havia como evitar. O meu tempo fez você achar que havia algo de errado com o seu tempo, fechado e mudo num universo paralelo, onde os tempos se escondem quando a vida flui naturalmente à luz do sol. Dessa vez, o meu tempo nos atrasou. Mas há uma oportunidade linda nisso, sabe o que? É que se em algum momento somos um, mesmo sendo sempre dois, somos capazes de aprender a perdoar o tempo, essa criança sapeca, porém medrosa, que anseia apenas por conhecer a vida por inteiro. E respeitamos sua natureza ininteligível, e lhe fazemos carinho e lhe beijamos a testa na hora de adormecer. É tão simples, meu amor. Perdoe os ponteiros sem compasso que nos deixaram na vontade do impossível, porque o impossível é transitório, e quando saímos do sentido horário, ele muda. Vem cá e me abraça, porque, ainda, eu e você temos todo o tempo do mundo.
VAZIO
esta noite tive um sonho ruim e acordei chorando, trêmulo, o corpo frágil disforme na cama, a manhã rasgando o tecido das cortinas.
me acostumei a te imaginar aqui, de modo que o fracasso ainda me surpreenda, e não me permita o contentamento com a felicidade menor que há na solidão.
de coração em chamas e lágrimas libertas, escondi o rosto e abracei o nada.
abracei você.
ESCALA
quando a saudade cresce, tomo longos banhos, escrevo longas cartas, faço muito de tudo, ganho metros na imaginação. aumento o mundo para que ele fique do tamanho da sua falta, e ela não me esmague mais.
PRÁTICA
− you never give up, do you?
− only when I'm absolutely forced to. but I'm a very good loser.
− better than I am.
− well, I've had... more practice.
− only when I'm absolutely forced to. but I'm a very good loser.
− better than I am.
− well, I've had... more practice.
SITUAÇÃO
Oh, desculpe, não vi você aí, disse com graça e um sorriso fácil nos lábios, tropeçando nele, jogado no chão da sala, sem camisa, de barba crescida, com o olhar fixo em algum nada. Fazia pouco da tragédia, a que se anunciava em tanto silêncio. Ele não respondeu. Assistindo à cena, ninguém diria que se amavam e que faltariam dedos para contar há quantos anos, e se amavam, se amavam como os vizinhos, os amigos, os colegas de trabalho, os parentes e especialmente os ex-namorados nunca julgariam possível, como se não houvesse mais nada a fazer com o tempo que lhes restava de vida. Se amavam, se amavam por não saberem mais como não se amarem, como se o amor rendasse o olhar e, inescapável, viciasse como pó, se amavam como se o fim não fosse chegar, ou como se por tanto se amarem não tivessem medo do fim. Se amavam, e seria de mãos dadas que se assistiriam morrer. E morriam, morriam mais rápido do que era capaz o amor, com a dureza do cansaço e do suor e das lágrimas, morriam juntos, a cada instante mais calados e mais separados e mais e sempre imersos em seus próprios amores. De mãos dadas, imaginando um outro jeito, um dia mais leve, uma vida com outras escolhas e menos amor.
FUNNY GUY
por sua culpa, minha pele está terrível,
minha pele está terrível e eu passo as madrugadas
ouvindo Barbra Streisand e delirando que em poucas horas
o amor possa de súbito ser mesmo
as fresh as the morning air
e que we got nothing to be guilty of
e que if we had the chance to do it all again...
sei lá.
minha pele está terrível e eu passo as madrugadas
ouvindo Barbra Streisand e delirando que em poucas horas
o amor possa de súbito ser mesmo
as fresh as the morning air
e que we got nothing to be guilty of
e que if we had the chance to do it all again...
sei lá.
quanta bobagem.
NUNCA
É assim quando as questões são grandes demais para o coração.
Havia uma vida a levar, mas em Maria prioridade era a força sem forma que prendia, tirava a concentração, roubava qualquer leveza. Eu a observava se esforçando para dar sentido ao mood daqueles dias, que na melhor das definições passava pouco de uma profunda incapacidade, da grande amiga de uma letargia aparentemente incurável, de um coma em movimento que se manifesta em falta de lágrimas, sorriso, voz.
Em falta.
Em dias como aquele, o mundo lhe parecia uma bolha de tanta fragilidade, um nada etéreo, uma profusão branca sem fim na qual ela flutuava, uma confortável e tranquila atmosfera onde nada era capaz de atingi-la, impassível em seus olhos azuis.
Maria traçou planos, e quis contar a ele a respeito, como se mostrando que existiu um esforço frágil fizesse tudo ficar bem. “Volta, eu tenho um medo sem fronteira”, diria. “Carrego comigo um choro preso no centro do peito, no escuro, há muito e sempre e
apenas
à
espera
do
nunca”.
Mas, dessa vez, se calaria.
Havia uma vida a levar, mas em Maria prioridade era a força sem forma que prendia, tirava a concentração, roubava qualquer leveza. Eu a observava se esforçando para dar sentido ao mood daqueles dias, que na melhor das definições passava pouco de uma profunda incapacidade, da grande amiga de uma letargia aparentemente incurável, de um coma em movimento que se manifesta em falta de lágrimas, sorriso, voz.
Em falta.
Em dias como aquele, o mundo lhe parecia uma bolha de tanta fragilidade, um nada etéreo, uma profusão branca sem fim na qual ela flutuava, uma confortável e tranquila atmosfera onde nada era capaz de atingi-la, impassível em seus olhos azuis.
Maria traçou planos, e quis contar a ele a respeito, como se mostrando que existiu um esforço frágil fizesse tudo ficar bem. “Volta, eu tenho um medo sem fronteira”, diria. “Carrego comigo um choro preso no centro do peito, no escuro, há muito e sempre e
apenas
à
espera
do
nunca”.
Mas, dessa vez, se calaria.
TENTATIVA
"would you leave me
if I told you what I've done?
and would you leave me
and would you leave me
if I told you what I've become?
'cause it's so easy to sing it to a crowd
but it's so hard, my love
'cause it's so easy to sing it to a crowd
but it's so hard, my love
to say it to you
all alone"
DOENÇA
torci para que houvesse algo de errado comigo, algo quimicamente, fisicamente, biologicamente, intrinsecamente errado comigo, pois se a doença fosse real haveria pílulas, xaropes, injeções, internações, sangrias, especialistas estrangeiros que a curassem. se me restasse aceitar que o problema era, de fato, eu, o coração e os pulsos dificilmente suportariam tamanha falta de esperança.
DISTÂNCIA
de saudade gentil,
mandei beijo para a sua foto,
e, certo, sorri,
sem vergonha do ridículo.
chamam de amor.
chamam de amor.
MIRAGENS
encontrei, eu, encontrei eu, me encontrei em um deserto, um deserto de devaneios românticos, devaneios em vez de areia, em forma de areia, miragens de vida real, chuva em vez de sol, chuva de vinho de segunda mão esquecido na geladeira, de tempo, tempo, tempo, tempo passando, céu azul infinito, areia, não-areia, devaneio infinito.
e pedi,
pega
na
minha
mão,
mostra pra mim um caminho mais seu, até você, nesse deserto tedioso e viciante, nesse labirinto de plástico bolha e telefonemas às dez para a meia-noite.
eu não quis perder a esperança? mas esperança não se perde, nem se tem, nunca, sempre ela se empresta e, sem dono ou compromisso, foge quando bem entende.
“foge, foge”, “não fujo”, “some, sai dessa”, “não saio”, “corre, acorda”, “cala a boca”. calou. calor. deserto de devaneios, de utopias travestidas de fracasso, um só, como a vida.
e pedi,
pega
na
minha
mão,
mostra pra mim um caminho mais seu, até você, nesse deserto tedioso e viciante, nesse labirinto de plástico bolha e telefonemas às dez para a meia-noite.
eu não quis perder a esperança? mas esperança não se perde, nem se tem, nunca, sempre ela se empresta e, sem dono ou compromisso, foge quando bem entende.
“foge, foge”, “não fujo”, “some, sai dessa”, “não saio”, “corre, acorda”, “cala a boca”. calou. calor. deserto de devaneios, de utopias travestidas de fracasso, um só, como a vida.
S.O.S.
“o que você está fazendo com a sua vida?”,
disse alguém sem forma, imaterial,
alguém que não existia, alguém que era ele mesmo,
alguém que não existia.
“pois é, que merda
eu tô fazendo com a minha vida?”,
podia ter gritado, mas o costume só permitiu o anúncio
num tom elegante
e discreto.
esperava, percebia, só esperava, apesar de não assumir que esperava, esperava por alguém, e esperava por alguém que esperava ele próprio por algo que nunca chegaria, o que significa que esperava em vão.
sentia o cheiro do autodesperdício.
não era bom.
disse alguém sem forma, imaterial,
alguém que não existia, alguém que era ele mesmo,
alguém que não existia.
“pois é, que merda
eu tô fazendo com a minha vida?”,
podia ter gritado, mas o costume só permitiu o anúncio
num tom elegante
e discreto.
esperava, percebia, só esperava, apesar de não assumir que esperava, esperava por alguém, e esperava por alguém que esperava ele próprio por algo que nunca chegaria, o que significa que esperava em vão.
sentia o cheiro do autodesperdício.
não era bom.
SOMA
a verdadeira questão nunca havia sido se é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo, e sim se é possível ser plenamente feliz com apenas uma delas.
BARATO
− Você fuma um?
Ai, do que ele tá falando? Escolhi perder coordenadas nessa noite, eu sei. Talvez tenha ido longe demais.
− Hum − espera, respira, faz uma cara boa, opa, certo, vai. De novo. − Um o que?
Ridícula.
− Um beck.
Ai, é claro. Droga, pareço uma estúpida.
− Ah, sim, sim, fumo, não sempre, se tem alguém fumando e me oferece eu pego, sem problemas, pego, curto, não é sempre, mas fumo já fumei fumo fumo sim, claro.
Ai, do que ele tá falando? Escolhi perder coordenadas nessa noite, eu sei. Talvez tenha ido longe demais.
− Hum − espera, respira, faz uma cara boa, opa, certo, vai. De novo. − Um o que?
Ridícula.
− Um beck.
Ai, é claro. Droga, pareço uma estúpida.
− Ah, sim, sim, fumo, não sempre, se tem alguém fumando e me oferece eu pego, sem problemas, pego, curto, não é sempre, mas fumo já fumei fumo fumo sim, claro.
Que nervosismo é esse, garota?
O cara é legal, vai, relaxa aí, que inferno. Na pior das hipóteses, você inventa que seu último ônibus vai sair já já e que precisa se mandar.
O cara é legal, vai, relaxa aí, que inferno. Na pior das hipóteses, você inventa que seu último ônibus vai sair já já e que precisa se mandar.
− Quer um agora?
− Pode ser.
Tinha “fumado um” algumas vezes antes, umas cinco, seis, talvez sete, por aí. Achava que era meio imune, porque nunca bateu. Prometeram e não cumpriram, foram aulas e aulas. “Tem que sentir na garganta, você sente?”. “Sinto, porra”. COF COF. Barato. Era difícil separar o barato do beck do barato que já rolava. Vivia de baratos. Um barato em cima do outro, quase sempre naturais. O maior de todos: ele, sempre ele.
COF COF COF COF COF COF COF COF COF COF COF COF. Lágrimas. LÁ-GRI-MAS.
Tinha “fumado um” algumas vezes antes, umas cinco, seis, talvez sete, por aí. Achava que era meio imune, porque nunca bateu. Prometeram e não cumpriram, foram aulas e aulas. “Tem que sentir na garganta, você sente?”. “Sinto, porra”. COF COF. Barato. Era difícil separar o barato do beck do barato que já rolava. Vivia de baratos. Um barato em cima do outro, quase sempre naturais. O maior de todos: ele, sempre ele.
COF COF COF COF COF COF COF COF COF COF COF COF. Lágrimas. LÁ-GRI-MAS.
− Pôxa, você quer uma água?
Vergonha. Derrota. Lama. Um buraco, por favor.
− Não, cof, não precisa, obrigada, COF.
Tudo indica que ainda não pareci tonta o suficiente por uma noite. Obrigada, universo.
− Me fala, você já fez peruana?
− Hum, acho que não. − Preciso ficar com medo? Ai, não, não, não. − O que é?
COF COF COF.
Espero que seja uma técnica para desaparecer num piscar de olhos.
Espero que seja uma técnica para desaparecer num piscar de olhos.
− É quando um segura a fumaça do beck e solta na boca do outro. Vem cá, vou te mostrar.
Uau, ele é bom nisso.
Desses cinco, seis, talvez sete, por aí, tinha fumado metade com ele. O último tinha sido com ele. O penúltimo também, na cama dele, em uma noite fria de sábado. Vinho, tinham bebido um monte de vinho. Voltavam de uma festa. Juntos, estavam tão juntos. Era o ápice dos dois, só percebeu muito tempo depois. Ria como nunca, mas sequer cogitou que pudesse ser por causa do beck, era por causa dele e de tudo o que faltava nele. De tudo o que faltava nela. Voltavam de uma festa. Era o ápice dos dois. Passou.
− Você é muito linda, sabia? − Não bateu. Não bateu. Não bateu. − Fiquei feliz que você veio. − NÃO BATEU. Não bateu. não bateu. − Ei, tá tudo bem com você?
Bateu?
− Oi. − Isso, nem disfarça que não tava prestando atenção. Ridícula. − Desculpa, tô bem sim.
− Ouviu quando eu disse que você é linda?
− Que fofo você.
− Mas é verdade.
E você é fofo de verdade.
Bonito. Engraçado. Interessante. Espontâneo.
Você não é ele.
− Hehe.
− Hehe.
− Curtiu a peruana? Vem cá, faz você comigo agora.
Por hoje, com sorte.
Errado − foi como tudo começou. Foram ágeis na hora de fingir uma fundação, trêmula, não foram na hora de assumir o fracasso. Não dá, não dá, não dá, não dá não dá, não dá. Não dá para se equilibrar sobre algo que, não tendo sido planejado, nem espontâneo foi. Ninguém teve coragem de dizer. Gostavam de músicas das quais ninguém mais gostava, e as ouviam juntos, divertindo-se com o isolamento do amor. Se amavam. Errado.
Errado − foi como tudo começou. Foram ágeis na hora de fingir uma fundação, trêmula, não foram na hora de assumir o fracasso. Não dá, não dá, não dá, não dá não dá, não dá. Não dá para se equilibrar sobre algo que, não tendo sido planejado, nem espontâneo foi. Ninguém teve coragem de dizer. Gostavam de músicas das quais ninguém mais gostava, e as ouviam juntos, divertindo-se com o isolamento do amor. Se amavam. Errado.
Ele vai me chamar pra ir pro quarto.
− Quer ir lá pro quarto?
Gosto que ele seja tão direto.
Gentilmente direto. Diretamente gentil.
− Vamos.
Dane-se.
− Vou pegar mais umas cervejas pra gente.
− Tá bom. − Mais cervejas. Não preciso de mais cervejas. − Vou ao banheiro enquanto isso.
− Tá bom. − Mais cervejas. Não preciso de mais cervejas. − Vou ao banheiro enquanto isso.
COF.
Espelho. Eu.
Olhos vermelhos e cabelos bagunçados. Pele péssima.
Sentia falta.
Tanto tentou se encontrar em outros braços. Se perdeu.
Sentia falta.
Tanto tentou se encontrar em outros braços. Se perdeu.
Que bem fazia pensar nisso tudo agora?
Não estava preocupada em tratar a si mesma com qualquer carinho.
Não estava preocupada em tratar a si mesma com qualquer carinho.
− Tô horrível.
Com olhos vermelhos, cabelos bagunçados, pele oleosa.
O resto, em pedaços.
Ele não te quer mais, você sabe, se acostuma com isso, vai viver, conhecer gente nova, descobrir a beleza de gente nova, vai, esquece dele, ele não te quer mais. Ele não te quer mais. Ele não te quer mais, e agora fuma os becks dele sozinho, deitado na cama, com a janela do quarto aberta, vendo poesia na fumaça e ouvindo o ruído do mundo lá do oitavo andar. Ou fuma com outra menina, uma que aceite o barato, que se entregue ao barato, que se entregue para ele. Do sétimo, do outro lado da cidade, ouço apenas o seu rosto.
− Preciso ir, meu último ônibus sai já já.
Ele não te quer mais, você sabe, se acostuma com isso, vai viver, conhecer gente nova, descobrir a beleza de gente nova, vai, esquece dele, ele não te quer mais. Ele não te quer mais. Ele não te quer mais, e agora fuma os becks dele sozinho, deitado na cama, com a janela do quarto aberta, vendo poesia na fumaça e ouvindo o ruído do mundo lá do oitavo andar. Ou fuma com outra menina, uma que aceite o barato, que se entregue ao barato, que se entregue para ele. Do sétimo, do outro lado da cidade, ouço apenas o seu rosto.
− Preciso ir, meu último ônibus sai já já.
Não discute, não vira um chato, não inventa de cuidar de mim, continue perfeito.
− Tá bom.
− A gente pode se ver de novo na semana que vem.
− Legal, eu gostaria. − Eu gostaria também. − Foi ótimo.
Eu também achei ótimo.
Achei.
Achei mesmo.
Acho.
De verdade.
Ah, você não entenderia.
− Tchau.
− Tchau.
− Se cuida por aí, tá tarde.
Quase.
− Relaxa, eu sei me cuidar.
Traíra, mais uma vez. Ainda parecia tão errado.
ALVO
“você não se apaixona pelas pessoas. você é apaixonado pelo amor.”
concordei, sem ver o que havia de errado nisso.
PERSPECTIVA
"don't get me wrong
if I'm looking kind of dazzled
I see neon lights
whenever you walk by"
whenever you walk by"
PROMESSA
"Me promete uma coisa", você disse, e eu usei a sua pausa para disfarçar uma lágrima. Maldita lágrima. "Nunca perca a sua espontaneidade", completou, e me olhou como se com uma frase salvasse a minha vida.
Espontaneidade. Espontaneidade. ESPONTANEIDADE, que palavra feia.
Se é ela que você usa para chamar essa minha mania de ir contra os bons conselhos e me atirar de cabeça em claros precipícios, de escolher pensar pouco e seguir impulsos que não se provam nada além de desastrosos, de amar loucamente, amar loucamente, loucamente, loucamente, de ignorar os riscos e me largar com todo o orgulho em ciclos empiricamente falhos, de dizer que, com gosto, me esqueceria de que um dia existiu qualquer outra coisa a não ser você, e que dormiria ao seu lado como quem acredita que felicidade é apenas isso e que não haveria mais pelo que procurar, não se preocupe.
Perdê-la é muito mais do que me dou ao direito. Mas, bem, respondi apenas "ok". Assim.
Espontaneidade. Espontaneidade. ESPONTANEIDADE, que palavra feia.
Se é ela que você usa para chamar essa minha mania de ir contra os bons conselhos e me atirar de cabeça em claros precipícios, de escolher pensar pouco e seguir impulsos que não se provam nada além de desastrosos, de amar loucamente, amar loucamente, loucamente, loucamente, de ignorar os riscos e me largar com todo o orgulho em ciclos empiricamente falhos, de dizer que, com gosto, me esqueceria de que um dia existiu qualquer outra coisa a não ser você, e que dormiria ao seu lado como quem acredita que felicidade é apenas isso e que não haveria mais pelo que procurar, não se preocupe.
Perdê-la é muito mais do que me dou ao direito. Mas, bem, respondi apenas "ok". Assim.
SATISFAÇÃO
veio hoje me dar satisfação por ter me jogado fora tanto tempo atrás. sem pedido, veio falar do quão triste foi tudo ter dado errado, de como a gente não segurou a barra e de como fugiu sem dar meia explicação. como quem se lembra de uma dívida antiga, veio falar de como me amou, de como amou alguém pela primeira vez, de como fomos sublimes por aquele pouco tempo, de como somos perfeitos juntos e de como não conseguimos. de como doeu ver aquele passado amor se esvair sem saber fazer nada a respeito.
e me fez analisar a grandeza de uma história que nem percebi tão bem o que tinha sido, me forçou a perceber que existiu esse amor todo e que segue existindo alguma coisa linda que vai ficar jogada por aí, sem uso. foi como se dissesse, com o silêncio: SEGURA AÍ A BOMBA E NÃO FAZ NADA A RESPEITO.
ainda me contou, gentil, que, um mês depois de jogar para cima de mim que precisava de tempo sem ninguém, encontrou alguém. daniel, o nome do moço. bem vestido, independente, fã do fante e do leminski. e seguem felizes, tanto quanto dá, quer dizer, apesar desse peso no peito que fez questão de me apresentar, de carregar o meu nome gravado em neon embaixo da camisa por onde quer que vá. o fracasso da distância.
não basta. deseja que eu seja um amigo, porque eu, aparentemente, sou alguém especial. e eu também quereria ser um amigo, o melhor amigo, se não estivesse fingindo que com as verdades tardias de hoje ficou tudo bem e que dá para afogar um ou outro amor que a gente ainda sente num dia a dia ameno, que o olhar não vai denunciar emoções ainda não inventadas, que há um nós a ser levado a pés de algodão.
a arte de dizer que está pronto sem estar, de engolir o PQP VOCÊ NÃO FAZ IDEIA, de se convencer de que o amor de verdade é outra coisa.
ou não. pqp eu.
em neon. ainda em neon.
e me fez analisar a grandeza de uma história que nem percebi tão bem o que tinha sido, me forçou a perceber que existiu esse amor todo e que segue existindo alguma coisa linda que vai ficar jogada por aí, sem uso. foi como se dissesse, com o silêncio: SEGURA AÍ A BOMBA E NÃO FAZ NADA A RESPEITO.
ainda me contou, gentil, que, um mês depois de jogar para cima de mim que precisava de tempo sem ninguém, encontrou alguém. daniel, o nome do moço. bem vestido, independente, fã do fante e do leminski. e seguem felizes, tanto quanto dá, quer dizer, apesar desse peso no peito que fez questão de me apresentar, de carregar o meu nome gravado em neon embaixo da camisa por onde quer que vá. o fracasso da distância.
não basta. deseja que eu seja um amigo, porque eu, aparentemente, sou alguém especial. e eu também quereria ser um amigo, o melhor amigo, se não estivesse fingindo que com as verdades tardias de hoje ficou tudo bem e que dá para afogar um ou outro amor que a gente ainda sente num dia a dia ameno, que o olhar não vai denunciar emoções ainda não inventadas, que há um nós a ser levado a pés de algodão.
a arte de dizer que está pronto sem estar, de engolir o PQP VOCÊ NÃO FAZ IDEIA, de se convencer de que o amor de verdade é outra coisa.
ou não. pqp eu.
em neon. ainda em neon.
FORA DE ÁREA
− alô.
− oi.
− oi.
− tudo bem?
(seu filho da puta, como você tem cara de me ligar e me jogar na cara um “tudo bem?” inútil e vazio como se a gente ainda se guiasse por algum tipo de convenção social e como se não tivesse acabado comigo na hora em que fui mais seu, seu covarde, você é um covarde, um bundão, é, você é um bundão, um bundão que se esconde atrás dessa merda desse papo de maturidade e que foge da felicidade, ouviu?, foge da felicidade com o pretexto de estar fazendo a coisa certa, coisa certa o caralho, coisa certa é eu cair na real e me convencer de que você foi um sonho ruim e sair por aí vivendo e me sufocando de tanta alegria do lado de gente que não vai me pisar e me enrolar e me manipular com uma porra de sentimento que não vale de nada, com um sonho escroto que você fez questão de jogar no lixo tantas vezes, uma merda de um amor maior do mundo sem valor, cujo valor você tirou, seu filho da puta, quando me olhou na cara e cuspiu que não podia, você perdeu o direito de pensar em mim, de lembrar que eu tô aqui, de me ligar, de ouvir a minha voz, perdeu o direito de saber que eu te amo e de se consolar das merdas da vida no meu amor por você, acabou, acabou, fim, eu não quero mais ouvir o teu nome, não quero ter nada a ver com você, quero sumir com essa mancha enorme que ficou na minha vida por sua causa, porque você foi um idiota, porque você nunca foi forte o bastante pra segurar a onda, porque eu sempre fui mais forte do que você.)
− tudo.
− oi.
− oi.
− tudo bem?
(seu filho da puta, como você tem cara de me ligar e me jogar na cara um “tudo bem?” inútil e vazio como se a gente ainda se guiasse por algum tipo de convenção social e como se não tivesse acabado comigo na hora em que fui mais seu, seu covarde, você é um covarde, um bundão, é, você é um bundão, um bundão que se esconde atrás dessa merda desse papo de maturidade e que foge da felicidade, ouviu?, foge da felicidade com o pretexto de estar fazendo a coisa certa, coisa certa o caralho, coisa certa é eu cair na real e me convencer de que você foi um sonho ruim e sair por aí vivendo e me sufocando de tanta alegria do lado de gente que não vai me pisar e me enrolar e me manipular com uma porra de sentimento que não vale de nada, com um sonho escroto que você fez questão de jogar no lixo tantas vezes, uma merda de um amor maior do mundo sem valor, cujo valor você tirou, seu filho da puta, quando me olhou na cara e cuspiu que não podia, você perdeu o direito de pensar em mim, de lembrar que eu tô aqui, de me ligar, de ouvir a minha voz, perdeu o direito de saber que eu te amo e de se consolar das merdas da vida no meu amor por você, acabou, acabou, fim, eu não quero mais ouvir o teu nome, não quero ter nada a ver com você, quero sumir com essa mancha enorme que ficou na minha vida por sua causa, porque você foi um idiota, porque você nunca foi forte o bastante pra segurar a onda, porque eu sempre fui mais forte do que você.)
− tudo.
GLOSSÁRIO
a saudade de um surgia sem que o outro pudesse evitá-la. mas não é mesmo assim que saudade funciona? vinha em manhãs comuns, na embalagem de uma melancolia sem motivo, surpreendente após um sono pouco além de tranquilo. vinha na forma de outras saudades, também, saudade de outras pessoas, de sensações e lembranças espalhadas pela vida. mas a dúvida se mantinha apenas enquanto julgava prudente enganar a si mesmo: era saudade dele, o peito não deixava negar. e com ela há muito já não havia o que fazer. olharia fotos. escreveria cartas sem qualquer novidade. não as mandaria. evitaria aqueles discos, mas só por uns minutos. logo, os colocaria para tocar. relembraria. contaria a história para si mesmo, com cada detalhe, em ordem cronológica. reviveria o conto curto com direito a pausas dramáticas. procuraria, mais uma vez, mensagens camufladas em todas as entrelinhas. inventaria. encontraria. voltaria brevemente à realidade. tarde demais. narraria possibilidades. pintaria possíveis cenários, todos mais contentes. deixaria as ideias se perderem por uma vida em potencial. e então sentiria vontade de falar sobre. mas todos os amigos já teriam se cansado do assunto, e haveria repetição em qualquer coisa que se dissesse a respeito. fugiria. não seria capaz, descobriria. ficaria sozinho, ouvindo àquelas músicas, escrevendo aquelas cartas. ficaria sozinho, com um fardo a engolir, com as mãos atadas, sentindo a falta. isso é saudade.
PRESSENTIMENTO
"vem, meu novo amor.
vou deixar a casa aberta.
já escuto os teus passos
procurando o meu abrigo.
vem, que o sol raiou.
os jardins estão florindo.
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade."
vou deixar a casa aberta.
já escuto os teus passos
procurando o meu abrigo.
vem, que o sol raiou.
os jardins estão florindo.
tudo faz pressentimento
que este é o tempo ansiado
de se ter felicidade."
AUDIÊNCIA
sei que a qualquer momento uma equipe de programa de tevê cafona vai abrir essa porta num estrondo e dizer que é tudo uma piada de mau gosto, do tipo que dá audiência numa tarde de domingo. satisfeito, vou agradecer.
sei que vai ser assim.
sei que vai ser assim.
POÉTICA
num sono que foi embora, vi a chance.
pela poesia do ato, da noite, das palavrinhas dispostas com
significado especial. cacei uma música que acalentasse,
toquei ella fitzgerald. e acabei no seu nome
mais uma vez. suas sete letras, que eu rearranjo na cabeça
ou na areia daquela praia o tempo todo
e como bem entendo. acabei no seu nome e voltei
ao prazer delicioso de quem ainda
não foi descoberto, de quem sente que tem só para si
algo esquecido no tempo e enche o peito
de vagalumes por ser tão céu e tão escuro e tão vazio.
com o devido prazer de quem se delicia amargamente
com palavras escritas para outros meninos, sei.
mas elas inspiram boas lágrimas. me pergunto
o que você sentiria se soubesse que me inspira lágrimas,
todas. e, desse jeito, vou passando, incólume, invisível,
sem nome ou rastro, vivendo os teus pensamentos antigos,
supondo descobrir teu coração, chegando perto.
tanta beleza sangra, embora acalente,
como ella. e traz à mente aquela noite em que
adiei o banho eternamente para evitar que o seu cheiro
escapasse do meu corpo, para evitar o fim.
pouco do natural se evita, e agora é só palavra o que eu tenho.
enquanto aquela voz, a que acalenta,
canta "let's do it, let's fall in love"
e não me deixa esquecer de me entregar à paixão.
seja ela das simples ou das mais poéticas,
como essa.
pela poesia do ato, da noite, das palavrinhas dispostas com
significado especial. cacei uma música que acalentasse,
toquei ella fitzgerald. e acabei no seu nome
mais uma vez. suas sete letras, que eu rearranjo na cabeça
ou na areia daquela praia o tempo todo
e como bem entendo. acabei no seu nome e voltei
ao prazer delicioso de quem ainda
não foi descoberto, de quem sente que tem só para si
algo esquecido no tempo e enche o peito
de vagalumes por ser tão céu e tão escuro e tão vazio.
com o devido prazer de quem se delicia amargamente
com palavras escritas para outros meninos, sei.
mas elas inspiram boas lágrimas. me pergunto
o que você sentiria se soubesse que me inspira lágrimas,
todas. e, desse jeito, vou passando, incólume, invisível,
sem nome ou rastro, vivendo os teus pensamentos antigos,
supondo descobrir teu coração, chegando perto.
tanta beleza sangra, embora acalente,
como ella. e traz à mente aquela noite em que
adiei o banho eternamente para evitar que o seu cheiro
escapasse do meu corpo, para evitar o fim.
pouco do natural se evita, e agora é só palavra o que eu tenho.
enquanto aquela voz, a que acalenta,
canta "let's do it, let's fall in love"
e não me deixa esquecer de me entregar à paixão.
seja ela das simples ou das mais poéticas,
como essa.
TRAÍ
lembro exatamente da primeira vez em que te traí. foi rápido e não incomodou tanto quanto eu esperava. porque a gente sempre espera a culpa, a crise, o "meu deus, eu não presto". mas nada disso veio. foi rápido, relativamente limpo, sem rastros. foi bem feito. e não me arrependi, porque no outro dia a vida seguia como sempre. você não mudou, eu não mudei. aconteceu e tudo continuou como sempre foi. considerei, então, fazer de novo. não tinha sido aquele estouro, passou longe de ser o melhor sexo da minha vida. mas foi prazeroso o suficiente. foi diferente. um corpo novo, ainda que cheio de defeitos, um ritmo ainda a descobrir, a chance de testar personas que você já tinha se acostumado a não enxergar em mim. fiz coisas que te surpreenderiam. a segunda não foi tão diferente. aproveitei aquele tempo, disse que nem tinha saído de casa. tomei um banho demorado e segui sendo eu. na terceira, senti pena de você. não sei exatamente o porquê. na quarta, deixei a crise chegar. chorei um pouco, em vão. pensei em contar. marquei dia e hora para parar. mas aí descobri que você me traía também. e te odiei. senti o ciúme, a mentira, a falsa ilusão de que a gente era o casal perfeito. ilusão que você tirou de mim. te odiei. e aí fui para a quinta, com cores de vingança, motivado, para te fazer pagar a dor que eu senti. a sexta e a sétima vieram sem pausa, com uma urgência violenta que me assustou. fiz por raiva, pra você pagar. a oitava foi mais por costume. a nona, nem queria, mas a gente já não estava mais se falando, e eu não conseguiria dormir sem um toque. precisava de um abraço que veio suado, fazendo graça, tão fugaz, logo antes da ida ao banheiro. continuei na cama. passei a noite sozinho naquele motel vagabundo. a décima, nem sei se foi traição. não te via há mais de uma semana, e continuei sem te ver, até você aparecer pra dizer que não me queria mais. me deixou no chão do quarto detonado, para a faxineira limpar. e voltou a ser feliz mais rápido do que eu. voltou a chifrar quem você ama mais rápido do que eu. e saudade é o que eu mais tenho. saudade e esse amor enorme que não morre de jeito nenhum.
COMEÇO
quando ele foi embora, percebi que não sabia mais escrever sobre qualquer coisa que fosse pouco triste. me deixou, mais do que sozinho, entre o ódio hesitante e um "obrigado" de abrir os olhos.
OFENSA
ela foi embora e levou com ela qualquer vestígio de já ter estado aqui algum dia. o livro esquecido entre os meus numa prateleira da sala, a camiseta velha que usava como pijama nos dias mais frios, o guarda-chuva colorido que comprou e largou num canto, nunca se preocupou em levar embora. finalmente, levou. não me atirou em total surpresa, o "não dá mais" de uma noite atrás já avisava que todas essas coisinhas banais deixariam a minha casa em algum momento. e deixaram com pressa. ela foi com pressa. com a pressa de quem sabe que já jogou tempo demais fora comigo e que a vida nova deveria começar o quanto antes, sem desperdício adicional. não que a pressa me ofenda. ela ter se cansado de mim também não me ofende, sequer fere qualquer conceito empoeirado que eu tenha em relação ao amor, à vida, a sei lá. aceito o passado. entendo que há inércias impossíveis de manter. não me ofendo. nem com a liberdade alheia, nem com as possibilidades alheias, nem com a minha solidão. choro em silêncio, apenas, sabendo que fui o melhor que podia e que não errei. mais do que de vez em quando, há pouco que se pode fazer.
HOJE
o dia mais triste da minha vida foi um domingo. o mais feliz, uma sexta. a maior saudade veio em uma noite de sábado. o primeiro amor, forço a memória, acho que também. a certeza de que tudo deveria mudar chegou numa quinta, não sei bem a que horas. a mudança, de fato, adiei para a quarta seguinte.
hoje ainda é um mistério.
hoje ainda é um mistério.
O ROMANCE
com o sol de um mês qualquer, chegou o dia em que parar com a autopena pareceu menos impossível. então, bem, ela parou. e, como é com um bebê que nasce, tudo parecia novo, muito parecia ausente de sentido, o mundo era uma descoberta a acontecer.
peraí, era essa a grande novidade?
não parecia tão mais fácil viver assim do que vinha sendo viver escondida sob aquele peso feio do que já foi, do fim de meses atrás, de ainda ontem.
o fim. recomeços fazem as articulações doer.
foi então que bateram na porta. três batidas rápidas, que sugeriam ou intimidade ou pressa ou algum tipo de violência. de todas, era melhor fugir por enquanto.
"devagar, devagar", dizia mentalmente, em forma de mantra. "que merda", dizia com todo o corpo, em voz alta.
eram cinco da tarde. fosse em plena madrugada, um viva. mas há pouca poesia em um alguém misterioso batendo na sua porta às cinco da tarde de uma terça-feira. melhor ignorar. o melhor era ignorar. ignorar. então, a voz.
− fê, eu sei que você está aí.
− que merda − repetiu. deixou o mantra pra lá.
peraí, era essa a grande novidade?
não parecia tão mais fácil viver assim do que vinha sendo viver escondida sob aquele peso feio do que já foi, do fim de meses atrás, de ainda ontem.
o fim. recomeços fazem as articulações doer.
foi então que bateram na porta. três batidas rápidas, que sugeriam ou intimidade ou pressa ou algum tipo de violência. de todas, era melhor fugir por enquanto.
"devagar, devagar", dizia mentalmente, em forma de mantra. "que merda", dizia com todo o corpo, em voz alta.
eram cinco da tarde. fosse em plena madrugada, um viva. mas há pouca poesia em um alguém misterioso batendo na sua porta às cinco da tarde de uma terça-feira. melhor ignorar. o melhor era ignorar. ignorar. então, a voz.
− fê, eu sei que você está aí.
− que merda − repetiu. deixou o mantra pra lá.
"E SE"
triste é o amor ter ido embora. e a gente ter continuado aqui, sentindo saudade do amor que se esvaiu.
ESCAPE
ambos diziam estar bem, mas, enquanto um se perdia em espirros, o outro dava vida a um violento ataque de tosse. tudo no passeio público, enquanto, de fato, parecia-se fazer ficar bem.
era como se aqueles dois corpos, donos de sentimentos revirados, procurassem uma forma de externar toda a dor que se mantinha escondida sob a cobertura falsa de força e otimismo, a dor que, acreditava-se, era melhor fingir que não existia.
para, em ilusão, evitá-la ou diminui-la, não? sim. a lógica de quem sofre é sempre confusa.
não há parâmetros além dos que imploram proteção, PROTEÇÃO, proteção dos perigos do mundo, de estar sozinho na cama espaçosa, de estar sozinho. por horas, ou dias, semanas, meses, a proteção vai faltar, e as cores todas parecerão um pouco mais opacas, e o tempo mais gelado ou mais quente, o céu caindo, os barulhos mais altos, os ouvidos e os braços menos abertos. não há grande incremento frente à dor da antecipada despedida incerta e do "a gente se fala" que pouco ou nada diz sobre o futuro triste que se avisa com um grito de desespero ou um soluço preso no fundo da garganta.
quando as contas chegam ao pavoroso fim, da dúvida, não escapa vida. do amor, não escapa frio. do medo, da lágrima e do lançamento de cabeça em um louco precipício, sequer escapamos eu ou você – ó babe.
era como se aqueles dois corpos, donos de sentimentos revirados, procurassem uma forma de externar toda a dor que se mantinha escondida sob a cobertura falsa de força e otimismo, a dor que, acreditava-se, era melhor fingir que não existia.
para, em ilusão, evitá-la ou diminui-la, não? sim. a lógica de quem sofre é sempre confusa.
não há parâmetros além dos que imploram proteção, PROTEÇÃO, proteção dos perigos do mundo, de estar sozinho na cama espaçosa, de estar sozinho. por horas, ou dias, semanas, meses, a proteção vai faltar, e as cores todas parecerão um pouco mais opacas, e o tempo mais gelado ou mais quente, o céu caindo, os barulhos mais altos, os ouvidos e os braços menos abertos. não há grande incremento frente à dor da antecipada despedida incerta e do "a gente se fala" que pouco ou nada diz sobre o futuro triste que se avisa com um grito de desespero ou um soluço preso no fundo da garganta.
quando as contas chegam ao pavoroso fim, da dúvida, não escapa vida. do amor, não escapa frio. do medo, da lágrima e do lançamento de cabeça em um louco precipício, sequer escapamos eu ou você – ó babe.
DEDICATED TO THE ONE I LOVE
"each night
before you go to bed, my baby,
whisper a little
prayer for me, my baby,
and tell all the stars above:
'this is dedicated to the one I love'.
(love can never be
exactly like we want it to be.)"
before you go to bed, my baby,
whisper a little
prayer for me, my baby,
and tell all the stars above:
'this is dedicated to the one I love'.
(love can never be
exactly like we want it to be.)"
REVELA
você,
que me traz lágrimas
sem culpa ou consciência,
em sete ondas,
cada letra do teu nome.
em breve,
meu desafio:
fingir
que não
já sei
tudo a seu respeito.
e, com gentileza
trazer você pra mim.
que me traz lágrimas
sem culpa ou consciência,
em sete ondas,
cada letra do teu nome.
em breve,
meu desafio:
fingir
que não
já sei
tudo a seu respeito.
e, com gentileza
trazer você pra mim.
EU TE AMO
− e até hoje, se ele por acaso aparecesse aqui e dissesse "vamos?", eu iria. para qualquer lugar.
− ele sabe disso?
− (...) eu acho que não.
− ele sabe disso?
− (...) eu acho que não.
YOU'VE GOT MAIL
ei, eu tenho um e-mail escrito para você salvo na minha caixa de rascunhos. um e-mail longo, do tipo que eu adoro escrever, dizendo tudo o que eu gostaria que você soubesse, desenhando grande parte do que passa pela minha cabeça, do factual às viagens mais deliciosas e assustadoras. um e-mail sem joguinhos e sem vergonha do ridículo. mas nunca mandei, porque: _____________. é, espaço em branco. sei lá porque. talvez porque ele daria um fim súbito a uma ilusão que eu não estou preparado para perder. é, faz sentido. mas, na verdade, a gente nunca está preparado, né? então a lógica se perde. ok, concordo, já tive esse papo comigo mesmo mais de uma vez. sou ótimo em overanalisar as coisas. me chama de idiota, de menininha de 15 anos, pode chamar. diz que eu sou é bobo por ficar nessa tortura poetizada por causa de algo que pesou tão pouco para o universo, para todos os outros, para você. mas tem coisa que não se evita: bala que a gente deixa atravessar a pele e que, depois de tocar a primeira camada, não para mais, vai até o fundo. até sair pelo outro lado. ou fica lá, escondida, perigando te matar, até te abrirem numa mesa de cirugia para arrancá-la e devolver a vida, agora marcada pelo sempre, num dia vazio. ando mais e mais impulsivo a cada dia; um jeito um tanto drástico de me virar com as mudanças inevitáveis e com o enjoo de ser o mesmo eu por tanto tempo. então, vou a extremos. e escrevo e-mails impublicáveis que esperam a primeira madrugada insone para chegarem ao destino.
DEFINITIVAMENTE
parou e ficou pensando em como se pode falar em paixão sendo o inocente alvo dela alguém nunca visto em pessoa, sem toque, sem cheiro, sem brilho dos olhos. alguém em cujos olhos nunca havia olhado como se deve antes dessas coisas. tentou inventar uma lógica para o frio na barriga que via surgir frente àquela ilusão romantizada de filme, quase barata, frente ao sorriso que se abria delicioso quando ouvia aquele nome, frente ao futuro desenhado com carinho em cada minuto dos dias estufados com a tal pretensão do amor com o quase desconhecido. depositava nele a expectativa do futuro bom. e só pedia que o sentimento recíproco fosse espontâneo, simultâneo, perfeito. parou, pensou e viu que o nome de tudo isso poderia ser carência, burrice, ingenuidade, muita coisa. só não amor. não, definitivamente, não podia ser amor.
CRIME
a barba que não era feita há dias, a falta de certeza, o pé na bunda, o abandono, a solidão. tudo levando a uma óbvia desvontade de viver. ele sorriu. nada, nada mudou com um sorriso. mas do grande clichê de decidir ser triste porque tudo deu errado, ao menos, o rapaz dos olhos azuis fugiu. orgulhoso, ainda sem rumo, com a mesma barba por fazer.
ELA
e desse risco iminente
de explodir em lágrimas a qualquer momento
que escolheram chamar,
gentis,
de vida?
de explodir em lágrimas a qualquer momento
que escolheram chamar,
gentis,
de vida?
dele, falo eu.
CORREIO
baby,
desculpe a demora. em tempos de e-mail, parece ridículo que você precise esperar tanto tempo por uma palavra minha, como se vivêssemos num interior ermo e perdido no tempo.
não venha dizer que sim, vivemos nesse interior. o nosso próprio não conta. do contrário, estaríamos ambos à beira do abismo desde que nos entendemos por gente, não? e nem venha dizer que sim, estamos mesmo. sem graça! você me conhece demais, e pouca novidade resiste a esse risco iminente que a gente chama de melhor amigo.
bem, tem tudo por aqui sido um pequeno estrondo.
vou pular a vida e ir direto ao que você quer saber. eis que já chegamos ao "eu te amo tanto que não tenho medo de te perder", vê se pode. é o tipo de confissão e de sentimento com o qual ninguém está tão preparado para lidar. alguém com 80 anos e muitos amores na memória, talvez, não sei. e soou errado a princípio, pouco lisongeiro, quase uma ofensa disfarçada de alguma outra coisa, mas ainda com cara de ofensa. mas depois entendi. é bom, e tem muito mais carinho nisso do que percebi na superfície. no exagero, o amor é tanto que não há condição de pertence. bonito, né? nobre, lindo, que se permite renúncias. parece o amor maior, ou algo próximo do que os livros contam que é um possível amor maior. não que eu entenda muito de amor, claro, quem dirá dos maiores, mas ao menos parece ser o tal que chegou aqui pertinho. ou talvez tenha sido eu quem inventou o que quis, não sei. o que não é possível? mas bem, foi isso o que ousei ouvir, com olhos nos olhos, cabeça no colo, mãos na pele, coração na boca, todo aquele clichê apavorante.
mas, veja só, seguimos distantes, um cá, outro lá. por ter pressa, olha que curioso, ou então por algum ideal romanceado que acaba barrando um desfecho. talvez a gente ache o conflito bonito, sei lá. sei que é como num filme muito bom, mas triste, daqueles que têm criancinha, daqueles em que a criancinha morre no final.
vai entender. por enquanto, há pouca ação a relatar. mas atualizo você, sim? torço (torça também!) para que em pouco. tenho me cansado muito, mas, percebo, mais pelo silêncio. poetizei, causei vergonha alheia? bem, fica um pensamento.
dramatizo com ares de piada, você entende, né?
e na sua cabeça, o que há de importante ou de disfarçadamente banal? conte. não é possível que eu seja a única pessoa à beira do abismo e de alguma forma de loucura por aqui. rarrá.
um beijo,
f.
desculpe a demora. em tempos de e-mail, parece ridículo que você precise esperar tanto tempo por uma palavra minha, como se vivêssemos num interior ermo e perdido no tempo.
não venha dizer que sim, vivemos nesse interior. o nosso próprio não conta. do contrário, estaríamos ambos à beira do abismo desde que nos entendemos por gente, não? e nem venha dizer que sim, estamos mesmo. sem graça! você me conhece demais, e pouca novidade resiste a esse risco iminente que a gente chama de melhor amigo.
bem, tem tudo por aqui sido um pequeno estrondo.
vou pular a vida e ir direto ao que você quer saber. eis que já chegamos ao "eu te amo tanto que não tenho medo de te perder", vê se pode. é o tipo de confissão e de sentimento com o qual ninguém está tão preparado para lidar. alguém com 80 anos e muitos amores na memória, talvez, não sei. e soou errado a princípio, pouco lisongeiro, quase uma ofensa disfarçada de alguma outra coisa, mas ainda com cara de ofensa. mas depois entendi. é bom, e tem muito mais carinho nisso do que percebi na superfície. no exagero, o amor é tanto que não há condição de pertence. bonito, né? nobre, lindo, que se permite renúncias. parece o amor maior, ou algo próximo do que os livros contam que é um possível amor maior. não que eu entenda muito de amor, claro, quem dirá dos maiores, mas ao menos parece ser o tal que chegou aqui pertinho. ou talvez tenha sido eu quem inventou o que quis, não sei. o que não é possível? mas bem, foi isso o que ousei ouvir, com olhos nos olhos, cabeça no colo, mãos na pele, coração na boca, todo aquele clichê apavorante.
mas, veja só, seguimos distantes, um cá, outro lá. por ter pressa, olha que curioso, ou então por algum ideal romanceado que acaba barrando um desfecho. talvez a gente ache o conflito bonito, sei lá. sei que é como num filme muito bom, mas triste, daqueles que têm criancinha, daqueles em que a criancinha morre no final.
vai entender. por enquanto, há pouca ação a relatar. mas atualizo você, sim? torço (torça também!) para que em pouco. tenho me cansado muito, mas, percebo, mais pelo silêncio. poetizei, causei vergonha alheia? bem, fica um pensamento.
dramatizo com ares de piada, você entende, né?
e na sua cabeça, o que há de importante ou de disfarçadamente banal? conte. não é possível que eu seja a única pessoa à beira do abismo e de alguma forma de loucura por aqui. rarrá.
um beijo,
f.
TODA FORMA
hoje peguei o e-mail mais dolorido que já escrevi e o transformei em uma carta de amor. ou de desamor.
não, de amor.
ESPERANÇA
−, e só de pensar em não ter mais você eu sinto o ar faltando, e é tão triste, tão tão triste, porque é tudo muito complicado, não basta ser como a gente é: não basta, eu sei que não basta.
parou para tomar um ar, depois de um discurso incômodo e sem pontos, enquanto o outro só ouvia − bem de perto, via-se, com os olhos molhados.
− o que você quer fazer?
ele não falou. tinha a impressão de que algo estava para morrer, e que dessa vez não haveria truque capaz de mudar aquele destino injusto e dolorido.
− fala comigo. eu não sei fazer isso sozinho.
mas não existiam palavras. e, mesmo que se criassem novas, não teriam intensidade suficiente para comunicar o que havia de invisível entre aqueles dois corpos marcados, cheios de defeitos que faziam o trivial um pouco menos feliz a cada dia.
− e se nada mudar? a gente pode tentar fazer com que nada mude, pode fugir, eu perco o sono e rolo na cama sentindo frio e calor e náusea e medo de que tudo mude, não pode, não, não assim, fala, diz que tem um jeito, que a gente esquece, e desenha tudo de novo, mais bonito, com mais cor e toma cuidado, muito cuidado, diz, vai; como naquele livro que a gente leu, "pede-se vida", deixa eu tentar, deixa eu tentar. diz que nada precisa mudar.
mas tudo já tinha mudado. foi aí que a primeira das lágrimas caiu.
parou para tomar um ar, depois de um discurso incômodo e sem pontos, enquanto o outro só ouvia − bem de perto, via-se, com os olhos molhados.
− o que você quer fazer?
ele não falou. tinha a impressão de que algo estava para morrer, e que dessa vez não haveria truque capaz de mudar aquele destino injusto e dolorido.
− fala comigo. eu não sei fazer isso sozinho.
mas não existiam palavras. e, mesmo que se criassem novas, não teriam intensidade suficiente para comunicar o que havia de invisível entre aqueles dois corpos marcados, cheios de defeitos que faziam o trivial um pouco menos feliz a cada dia.
− e se nada mudar? a gente pode tentar fazer com que nada mude, pode fugir, eu perco o sono e rolo na cama sentindo frio e calor e náusea e medo de que tudo mude, não pode, não, não assim, fala, diz que tem um jeito, que a gente esquece, e desenha tudo de novo, mais bonito, com mais cor e toma cuidado, muito cuidado, diz, vai; como naquele livro que a gente leu, "pede-se vida", deixa eu tentar, deixa eu tentar. diz que nada precisa mudar.
mas tudo já tinha mudado. foi aí que a primeira das lágrimas caiu.
TIMING
numa hora dessas todas quase iguais, para de doer
só no peito. porque doer no peito tem lá sua poesia,
inspira, enriquece o olhar. mas aí começa a doer nos
músculos, a alterar a passada, a pesar os olhos, a
forçar as articulações. para de ser bonito. e a gente,
com uma dignidade forçada, escolhe parar também.
timing bom, seja lá qual o valor dele, há que se ter.
só no peito. porque doer no peito tem lá sua poesia,
inspira, enriquece o olhar. mas aí começa a doer nos
músculos, a alterar a passada, a pesar os olhos, a
forçar as articulações. para de ser bonito. e a gente,
com uma dignidade forçada, escolhe parar também.
timing bom, seja lá qual o valor dele, há que se ter.
FALA
ela jogou um "eu te amo" no ar apenas para ouvi-lo de volta, refletido em um anônimo, e o fez sem culpa. não são poucas as vezes em que é a solidão quem diz que ama. rasa como era, não havia ainda pensado na raridade com que a recepção certa, aquela do brilho nos olhos, do não-sei-o-que-dizer, do calor nas têmporas, do mundo ao redor todo embaçadinho, vem junto e divide o momento com o célebre amor falado. foi só então (e, até hoje, apenas então) que se permitiu. e continuou, enxergando as sentenças de sentimento como mistérios em mesmo formato. perguntou a mim e a todos e a si mesma de quantas em quantas vem uma que realmente carrega a algum lugar melhor. mas deu-se cansada antes de alcançar a conclusão. não descobriu que o risco e a pena de soltar por aí um "eu te amo", seja ele devido ou não, é justamente não ganhá-lo de volta. ou então ter nas mãos um que não faz jus à espera, que não causa a emoção prometida, que não serve para nada.
SEGREDO
você me perguntou sobre as sete ondas, sobre as sete letras, sobre aquele nome. e eu não quis dizer que era o seu.
TANTO
queria você pra mim.
só pra mim.
queria tanto tanto tanto tanto tanto tanto tanto
só pra mim.
queria tanto tanto tanto tanto tanto tanto tanto
tanto
que começo a duvidar
se queria pelos motivos certos.
se queria pelos motivos certos.
provavelmente não.
FUGA
uma tristeza estranha que não cabe no peito. a incapacidade de transformar o sentimento em qualquer coisa que escape de dentro de mim.
TRADUÇÃO
foi fazendo qualquer coisa vulgar há pouco que pensei em você e de súbito percebi que sentia saudade.
pois saudade é assim: às vezes nem sabemos que existe; ela se manifesta em um desânimo insistente, em uma leve e quase normal desvontade de viver.
saudade é companhia nata que molda a vida no dia após dia, pessoa após pessoa, inferno após inferno.
e ser ingênuo não salva da falta. não salva do remorso, não salva da lembrança do sangue quente escorrendo e da vida que se esvaía.
mas que bem faz reconhecer saudade agora? matá-la é viajar no tempo, é voar sem ter direito ao dom de. me contento com o que a vida dá.
então, deixei doer. e voltei ao tanque, constante consciente, cheio de roupas que esperam pelo cheiro da limpeza - e precisam do meu já.
pois saudade é assim: às vezes nem sabemos que existe; ela se manifesta em um desânimo insistente, em uma leve e quase normal desvontade de viver.
saudade é companhia nata que molda a vida no dia após dia, pessoa após pessoa, inferno após inferno.
e ser ingênuo não salva da falta. não salva do remorso, não salva da lembrança do sangue quente escorrendo e da vida que se esvaía.
mas que bem faz reconhecer saudade agora? matá-la é viajar no tempo, é voar sem ter direito ao dom de. me contento com o que a vida dá.
então, deixei doer. e voltei ao tanque, constante consciente, cheio de roupas que esperam pelo cheiro da limpeza - e precisam do meu já.
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